COM A PALAVRA A POESIA: a denúncia social na voz e nos versos de Fernando Caldas

O objetivo deste projeto é divulgar o trabalho do poeta grapiúna Fernando Caldas, cuja obra sugere uma crítica sobre o seu processo de criação. O nome do Blog foi inspirado na composição FUNKAOS, música que está no CD “Voz de Mim” (1996).

Para fins de conhecimento da obra, buscamos fazer uma análise da letra corpus deste blog. Esperamos que com isso os nossos leitores possam estreitar a relação entre o poeta e suas produções.

O poeta


Fernando Caldas é um poeta que, entre outros atributos, se destaca pelo nível de informação que está inserida em seus versos. Para compreender a sua obra “requer, sem dúvida, não só o saber da obra de arte por dentro, como também o da sociedade fora dela.” (ADORNO, 2003: 68). A denúncia social está presente em todo o poema e a linguagem utilizada pelo poeta é “algo que estabelece uma inelutável referência ao universal e à sociedade” (ADORNO, 2003: 74). Segundo Theodor Adorno “as mais altas composições líricas são (...) aquelas nas quais o sujeito, sem qualquer resíduo da mera matéria, soa na linguagem, até que a própria linguagem ganha voz.” (2003: 74). Voz esta, que intenta mostrar que absurdos e os disparates sociais são de responsabilidade do Governo. Além disso, critica o conformismo em que a sociedade está mergulhada. Este atenta contra os fundamentos do pensar do indivíduo, e traz revolta para o eu-lírico. O poeta consegue passar a sua insatisfação por viver em uma sociedade assim, contudo “só entende aquilo que o poema diz quem escuta, em sua solidão, a voz da humanidade.” (ADORNO, 2003: 67).

A dança do caos



A letra da música “Funkaos”, que faz parte do CD “Voz de Mim”, lançado em 1996, pela Jupará Records, do poeta, filósofo, cantor e compositor Fernando Ribeiro Caldas, retrata, de uma maneira geral, a visão que o autor tem sobre diversos pontos polêmicos da nossa sociedade.
A obra como um todo, remete-nos a reflexões sobre questões sociais que são vistas todos os dias. E, embora se trate de problemas comuns a todos, a grande maioria da população não dá a mínima ou estão muito acomodados para tomar alguma iniciativa. São questões de cunho social, econômico, cultural, financeiro, enfim tudo aquilo que, se não vigiado constantemente e democraticamente, culmina num verdadeiro “kaos”. O autor utiliza-se de paradoxos no decorrer da sua obra para demonstrar alguns disparates sociais, a exemplo das diferenças entre classes sociais. Ele faz um trocadilho do que há de mais consumista, de mais genérico na sociedade com o caos da época, de onde surge o neologismo Funkaos, a dança do caos, a dança caótica do momento.

A crítica à sociedade

A música-poema de Fernando Caldas “Funkaos” mostra-nos o lado obscuro de um Brasil que, ao que parece, na visão do poeta, é mal parafraseado pelos otimistas românticos. Em Fernando Caldas, a palavra poética é a arma de um eu - lírico que já não suporta mais conviver com as insanidades de um país que delira com um faz-de-conta, sem se importar com a realidade que o cerca. Caldas mostra as chagas da sociedade, através de seu olhar profundamente crítico, possibilitando aos interlocutores uma reflexão acerca dos reais problemas do país. Característica marcante no fragmento:

O galhardão,
A galhardia,
A putaria é todo dia.
O menestrel,
O ministrão,
A vagabunda
De pés no chão.

As inúmeras inferências e intertextualidade não deixam dúvidas quanto ao caráter denunciativo do poema. Ao longo de um jogo de ritmo, rima, métrica e seleção vocabular, vai se tecendo construções imagéticas de um Brasil não forjado, de um Brasil menos etéreo. Talvez, a grande sacada de Fernando é justamente o trabalhar metonímico da linguagem, em que a crítica vai sendo tecida da parte para o todo. Por isso, há uma grande quantidade de informações que, de forma somática, resultam em um texto precisamente crítico, irônico e, acima de tudo, clarividente.

A heroína,
O heroizão,
De overdose caiu no vão.
O deputado não acessou
A senha do computador.
O taradão,
A menininha,
Isto é Brasil,
Que maravilha!

O jogo de palavras é constante e não por acaso. Por exemplo, ao utilizar os termos “heroína” e “heroizão”, o autor, possivelmente, estabelece uma relação entre a droga e o usuário, fazendo um trocadilho com a palavra “herói”. Essa relação é possível porque, como se sabe, a pessoa que utiliza droga sente-se, por um breve intervalo de tempo, como se fosse dotado de poder. A droga lhe concede um estado de euforia, e pelo fato de a pessoa se sentir nesse momento grande, o autor agrega à palavra “herói” o sufixo –ão, o que conota que quem usa a droga tem essa megalomania, esse poder. Só que isso resulta sempre numa overdose e depois numa disforia, que, por sua vez, leva a pessoa a cair no vão, ou seja, na futilidade da vida

Ao referir-se ao “deputado” e ao “taradão”, Caldas já insere outras inferências que juntas vão delineando a face desse Brasil tão pouco explorado, denunciando a corrupção e a pedofilia. Aqui podemos fazer uma intertextualidade com a música de Cazuza, quando ele diz “Brasil mostra a sua cara, quero ver quem paga para a gente ficar assim”.

Octávio Paz e Funkaos: Uma inter-poética-textualidade



A letra-poema Funkaos, de Fernando Caldas opera signos que transitam pelo imaginário da cultura. Certamente que ha uma preocupação aqui nesse poema com a questão da universalidade dos poemas, não é um obstáculo para sua compreensão em cearas mais amplas. Octavio Paz lembra que “a única nota comum a todos os poemas consiste em serem obras, produtos humanos, como os quadros dos pintores e as cadeiras dos carpinteiros.” Advogados, sindicalistas, craques em geral, são evocados na mesma fumaça da desilusão. O autor em Funkaos associa livremente palavras e expressões que se articulam na imaginação do leitor evocando algo panaca, mentiroso e cristão. Ha em tudo isso uma evidente ironia anárquica, categorias absolutamente opostas convivem lado a lado às mercadorias baratas da loja de 1,99. Podemos portanto afirmar que aqui na poesia de Fernando Caldas, “a poesia converte a pedra, a cor, a palavra, e o som em imagens”.

A pós-modernidade no caos


Identificam-se no poema características típicas da pós–modernidade tendo em vista que há uma relação marcante entre o perfil da sociedade, o contexto de produção, e seu reflexo no comportamento dos indivíduos. As cidades com seus avanços tecnológicos e comerciais estão criando seres mecanizados que vivem em favor do mercado e do aproveitamento do tempo. De acordo com Almeida (1985), “a produção lírica depende do texto e do contexto de produção, sendo que o poema lírico moderno a liberdade amorosa subverte velhos temas e antigas ideologias”. (p.61.)

O cidadão,
A companhia,
Marcha-Peão,
Plano Valquíria,
Masturbação,
Taxidermia,
O sapatão,
A sapatilha.

Nesse sentido, as relações interpessoais passam a ser efêmeras, sendo o sexo visto de maneira animalizada e instintiva sem muitos vínculos afetivos. A banalização do sexo tão marcante na pós-modernidade também se faz presente quando o eu-lirico por meio de expressões consideradas pornográficas ou imorais faz referencia a uma possível prática do sexo vulgarizado e/ou descriminado pela sociedade. Como por exemplo, os termos Masturbação, Taxidermia, Sapatão e Sapatilha.

Percebe-se, também, que o poeta faz alusões a questões históricas e científicas que tornam o poema uma incógnita a ser desvendada pelo leitor. Este, se não estiver situado no contexto e familiarizado com os termos utilizados, pode não compreender a mensagem transmitida fazendo diversas inferências que caracterizam

A expressão lírica como uma espécie de tensão e luta contra qualquer intencionalidade lógica e gramatical, contra qualquer explicação da emoção e do sentimento(ALMEIDA, 1985 p.58.)

Nesse contexto, evidenciam-se referências feitas ao chamado “Plano Valquíria” que idealizava a morte de Hitler no auge da Segunda Guerra Mundial, bem como são estabelecidas ligações com a marcha militar e a marcha-peão, “o povo”. É feita uma crítica à hierarquia presente na sociedade, representada, no fragmento, pelos sistemas econômico, social e militar. Diante disso, faz-se um diálogo com o texto sobre a emancipação do Lirismo Moderno em que a autora aponta a influência da cidade na relação entre o sujeito e o mundo. Citando, entre outros, Baudelaire e suas teorias sobre a modernidade e produção poética. Motivo pelo qual o poeta busca reinventar a sociedade tendo como “arma” a própria linguagem. Esta transgride os limites tanto temáticos quanto estéticos ora impostos à produção lírica, favorecendo a liberdade de produção e criação do poeta.
Fernando Caldas é um exemplo de tal característica moderna/ pós- moderna, tendo em vista que em FUNKAOS, não há o romantismo esperado e tradicionalmente idealizado em poemas. O autor utiliza, por vezes, uma linguagem considerada de baixo calão e obscena que chama a atenção para o sentimento de pertença em relação à Bahia. Perfil que pode ser constatado na estrofe a seguir:

Bom é no Rio,
Que o negro é branco,
Obediente como Tenente,
E o poeta diz que a Bahia
É cu do mundo,
Ó ilusão,
Se existe cu é lá pro sul,
Que fica embaixo,
Que é nazista,
Pois Bahia é o coração

Anarquismo, destruição e renovação










Fora direito,
Fora estado,
Estou cansado,
Estou ilhado,
A minha flor,
A minha vida,
Minha riqueza interior.

Gradativamente, o eu-lírico do poeta mostra-se descrente e revoltado ante a inércia do Governo. As palavras de “ordem” são anárquicas, já que protesta contra o Poder vigente, exigindo a destituição. Pelo fato de o eu-lírico estar perdido, ilhado, ele busca refúgio e riqueza em seu interior.

Sub-estado,
À lei do Cão estou atado,
À provisão,
À previsão,
À prevenção,
À privatização
À estatização,
À televisão,
Supra-direito, Supra-estado.

No primeiro momento, o poeta afirma que tudo está sob a jurisdição do Estado (É de direito, é de estado). Logo em seguida, faz um ataque violento ao insinuar uma anarquia e por fim, faz uso do sufixo -sub, que indicia uma desqualificação, uma inferiorização do Estado, mostrando com isso o seu descontentamento em relação à forma como o país foi e está sendo conduzido.

A Tua voz
Tenho clamado,
Inunda a Terra
Com teu fulgor,
Transforma
Esse martírio em Amor.

Diante de tantas frustrações, o eu lírico assume uma postura extremamente pessimista. A solução para o país seria a erradicação de praticamente todos os seus habitantes. É a alusão à passagem bíblica que nos indicia essa visão radical do poeta. A utilização do pronome “Tua” remete-nos à idéia de Deus; e o uso do verbo inundar, ao dilúvio. Segundo a bíblia, o dilúvio foi a forma que Deus encontrou para destruir a Terra, uma vez que a maldade do homem havia atingido um alto grau de insatisfação divina. Somente a destruição total poderia provocar uma renovação, que na verdade é o grande apelo do poeta para a sociedade de hoje.

Conheça a letra da música na íntegra


Funkaos

(Fernando Caldas)



O galhardão, / A galhardia,/ A putaria é todo dia.

O menestrel, / O ministrão, / A vagabunda / De pés no chão.

A heroína, / O heroizão, /De overdose caiu no vão.

O deputado não acessou/ A senha do computador.

O taradão, / A menininha, /Isto é Brasil, /Que maravilha!

O cidadão, /A companhia, /Marcha-Peão, /Plano Valquíria,

Masturbação, /Taxidermia, /O sapatão, /A sapatilha.

É bem melhor ser empresário /Que ser bancário, /Que ser Mamão.

Bom é no Rio, /Que o negro é branco, /Obediente como Tenente,

E o poeta diz que a Bahia /É cu do mundo, /Ó ilusão,

Se existe cu é lá pro sul, /Que fica embaixo, /Que é nazista,

Pois Bahia é o coração!

O merchandise, /A contramão,

A garotada que não tem pão, /Não jogam bola, /Engolem bola,

Craques não são, / Cheiram a desilusão.

É de direito, /É de estado, /Alguém é justo, /Alguém panaca,

Advogados, /Sindicalistas, /Mentira plena, /Credo Cristão.

É de direito, /É de estado, /Toda burrice /E malandragem,

Suprema corte, / Ínfimo corte /E Zé do Norte, /Amarelão.

É de direito, /É de estado, /O explorador, /O abastado,

A medicina empresarial,/ O latifúndio, / O manancial.

É de direito, /É de estado, /Estas feliz e conformado,

Ler Paulo Coelho, Dr. Lair, /A inteligência /Não cabe aqui.

Fora direito, /Fora estado, /Estou cansado, /Estou ilhado,

A minha flor, /A minha vida, /Minha riqueza interior.

Sub-direito, /Sub-estado, /À lei do Cão estou atado,

À provisão, /À previsão, / À prevenção,

À privatização /À estatização, /À televisão,

Supra-direito, /Supra-estado, /A Tua voz /Tenho clamado,

Inunda a Terra / Com teu fulgor, /

Transforma Esse martírio em Amor.