COM A PALAVRA A POESIA: a denúncia social na voz e nos versos de Fernando Caldas

O objetivo deste projeto é divulgar o trabalho do poeta grapiúna Fernando Caldas, cuja obra sugere uma crítica sobre o seu processo de criação. O nome do Blog foi inspirado na composição FUNKAOS, música que está no CD “Voz de Mim” (1996).

Para fins de conhecimento da obra, buscamos fazer uma análise da letra corpus deste blog. Esperamos que com isso os nossos leitores possam estreitar a relação entre o poeta e suas produções.

A pós-modernidade no caos


Identificam-se no poema características típicas da pós–modernidade tendo em vista que há uma relação marcante entre o perfil da sociedade, o contexto de produção, e seu reflexo no comportamento dos indivíduos. As cidades com seus avanços tecnológicos e comerciais estão criando seres mecanizados que vivem em favor do mercado e do aproveitamento do tempo. De acordo com Almeida (1985), “a produção lírica depende do texto e do contexto de produção, sendo que o poema lírico moderno a liberdade amorosa subverte velhos temas e antigas ideologias”. (p.61.)

O cidadão,
A companhia,
Marcha-Peão,
Plano Valquíria,
Masturbação,
Taxidermia,
O sapatão,
A sapatilha.

Nesse sentido, as relações interpessoais passam a ser efêmeras, sendo o sexo visto de maneira animalizada e instintiva sem muitos vínculos afetivos. A banalização do sexo tão marcante na pós-modernidade também se faz presente quando o eu-lirico por meio de expressões consideradas pornográficas ou imorais faz referencia a uma possível prática do sexo vulgarizado e/ou descriminado pela sociedade. Como por exemplo, os termos Masturbação, Taxidermia, Sapatão e Sapatilha.

Percebe-se, também, que o poeta faz alusões a questões históricas e científicas que tornam o poema uma incógnita a ser desvendada pelo leitor. Este, se não estiver situado no contexto e familiarizado com os termos utilizados, pode não compreender a mensagem transmitida fazendo diversas inferências que caracterizam

A expressão lírica como uma espécie de tensão e luta contra qualquer intencionalidade lógica e gramatical, contra qualquer explicação da emoção e do sentimento(ALMEIDA, 1985 p.58.)

Nesse contexto, evidenciam-se referências feitas ao chamado “Plano Valquíria” que idealizava a morte de Hitler no auge da Segunda Guerra Mundial, bem como são estabelecidas ligações com a marcha militar e a marcha-peão, “o povo”. É feita uma crítica à hierarquia presente na sociedade, representada, no fragmento, pelos sistemas econômico, social e militar. Diante disso, faz-se um diálogo com o texto sobre a emancipação do Lirismo Moderno em que a autora aponta a influência da cidade na relação entre o sujeito e o mundo. Citando, entre outros, Baudelaire e suas teorias sobre a modernidade e produção poética. Motivo pelo qual o poeta busca reinventar a sociedade tendo como “arma” a própria linguagem. Esta transgride os limites tanto temáticos quanto estéticos ora impostos à produção lírica, favorecendo a liberdade de produção e criação do poeta.
Fernando Caldas é um exemplo de tal característica moderna/ pós- moderna, tendo em vista que em FUNKAOS, não há o romantismo esperado e tradicionalmente idealizado em poemas. O autor utiliza, por vezes, uma linguagem considerada de baixo calão e obscena que chama a atenção para o sentimento de pertença em relação à Bahia. Perfil que pode ser constatado na estrofe a seguir:

Bom é no Rio,
Que o negro é branco,
Obediente como Tenente,
E o poeta diz que a Bahia
É cu do mundo,
Ó ilusão,
Se existe cu é lá pro sul,
Que fica embaixo,
Que é nazista,
Pois Bahia é o coração

Nenhum comentário: