O galhardão,
A galhardia,
A putaria é todo dia.
O menestrel,
O ministrão,
A vagabunda
De pés no chão.
As inúmeras inferências e intertextualidade não deixam dúvidas quanto ao caráter denunciativo do poema. Ao longo de um jogo de ritmo, rima, métrica e seleção vocabular, vai se tecendo construções imagéticas de um Brasil não forjado, de um Brasil menos etéreo. Talvez, a grande sacada de Fernando é justamente o trabalhar metonímico da linguagem, em que a crítica vai sendo tecida da parte para o todo. Por isso, há uma grande quantidade de informações que, de forma somática, resultam em um texto precisamente crítico, irônico e, acima de tudo, clarividente.
A heroína,
O heroizão,
De overdose caiu no vão.
O deputado não acessou
A senha do computador.
O taradão,
A menininha,
Isto é Brasil,
Que maravilha!
O jogo de palavras é constante e não por acaso. Por exemplo, ao utilizar os termos “heroína” e “heroizão”, o autor, possivelmente, estabelece uma relação entre a droga e o usuário, fazendo um trocadilho com a palavra “herói”. Essa relação é possível porque, como se sabe, a pessoa que utiliza droga sente-se, por um breve intervalo de tempo, como se fosse dotado de poder. A droga lhe concede um estado de euforia, e pelo fato de a pessoa se sentir nesse momento grande, o autor agrega à palavra “herói” o sufixo –ão, o que conota que quem usa a droga tem essa megalomania, esse poder. Só que isso resulta sempre numa overdose e depois numa disforia, que, por sua vez, leva a pessoa a cair no vão, ou seja, na futilidade da vida
Ao referir-se ao “deputado” e ao “taradão”, Caldas já insere outras inferências que juntas vão delineando a face desse Brasil tão pouco explorado, denunciando a corrupção e a pedofilia. Aqui podemos fazer uma intertextualidade com a música de Cazuza, quando ele diz “Brasil mostra a sua cara, quero ver quem paga para a gente ficar assim”.

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