COM A PALAVRA A POESIA: a denúncia social na voz e nos versos de Fernando Caldas

O objetivo deste projeto é divulgar o trabalho do poeta grapiúna Fernando Caldas, cuja obra sugere uma crítica sobre o seu processo de criação. O nome do Blog foi inspirado na composição FUNKAOS, música que está no CD “Voz de Mim” (1996).

Para fins de conhecimento da obra, buscamos fazer uma análise da letra corpus deste blog. Esperamos que com isso os nossos leitores possam estreitar a relação entre o poeta e suas produções.

A crítica à sociedade

A música-poema de Fernando Caldas “Funkaos” mostra-nos o lado obscuro de um Brasil que, ao que parece, na visão do poeta, é mal parafraseado pelos otimistas românticos. Em Fernando Caldas, a palavra poética é a arma de um eu - lírico que já não suporta mais conviver com as insanidades de um país que delira com um faz-de-conta, sem se importar com a realidade que o cerca. Caldas mostra as chagas da sociedade, através de seu olhar profundamente crítico, possibilitando aos interlocutores uma reflexão acerca dos reais problemas do país. Característica marcante no fragmento:

O galhardão,
A galhardia,
A putaria é todo dia.
O menestrel,
O ministrão,
A vagabunda
De pés no chão.

As inúmeras inferências e intertextualidade não deixam dúvidas quanto ao caráter denunciativo do poema. Ao longo de um jogo de ritmo, rima, métrica e seleção vocabular, vai se tecendo construções imagéticas de um Brasil não forjado, de um Brasil menos etéreo. Talvez, a grande sacada de Fernando é justamente o trabalhar metonímico da linguagem, em que a crítica vai sendo tecida da parte para o todo. Por isso, há uma grande quantidade de informações que, de forma somática, resultam em um texto precisamente crítico, irônico e, acima de tudo, clarividente.

A heroína,
O heroizão,
De overdose caiu no vão.
O deputado não acessou
A senha do computador.
O taradão,
A menininha,
Isto é Brasil,
Que maravilha!

O jogo de palavras é constante e não por acaso. Por exemplo, ao utilizar os termos “heroína” e “heroizão”, o autor, possivelmente, estabelece uma relação entre a droga e o usuário, fazendo um trocadilho com a palavra “herói”. Essa relação é possível porque, como se sabe, a pessoa que utiliza droga sente-se, por um breve intervalo de tempo, como se fosse dotado de poder. A droga lhe concede um estado de euforia, e pelo fato de a pessoa se sentir nesse momento grande, o autor agrega à palavra “herói” o sufixo –ão, o que conota que quem usa a droga tem essa megalomania, esse poder. Só que isso resulta sempre numa overdose e depois numa disforia, que, por sua vez, leva a pessoa a cair no vão, ou seja, na futilidade da vida

Ao referir-se ao “deputado” e ao “taradão”, Caldas já insere outras inferências que juntas vão delineando a face desse Brasil tão pouco explorado, denunciando a corrupção e a pedofilia. Aqui podemos fazer uma intertextualidade com a música de Cazuza, quando ele diz “Brasil mostra a sua cara, quero ver quem paga para a gente ficar assim”.

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